O Caso Dering v Uris: Difamação e Crimes de Guerra em Tribunal
Pontos principais
- O processo foi uma ação civil de difamação, não um julgamento penal, embora tenha exposto crimes de guerra em Auschwitz.
- O júri concedeu a Władysław Dering a indenização irrisória de meio centavo, tornando-o responsável pelos custos judiciais.
- A defesa provou que outros médicos prisioneiros em Auschwitz haviam recusado participar de experimentos nazistas sem serem executados.
- O caso inspirou o romance e a minissérie 'QB VII' de Leon Uris.
O processo Dering v Uris foi uma ação de difamação movida em 1964 na Inglaterra por Władysław Dering, um médico polonês, contra o escritor americano Leon Uris. O caso tornou-se notório por ter sido descrito na época como o primeiro julgamento de crimes de guerra realizado em solo britânico, embora tenha ocorrido sob a forma de um processo civil de calúnia e não como um tribunal penal militar.
Contexto e Origens do Conflito
Władysław Alexander Dering era um médico polonês que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi preso no campo de concentração de Auschwitz devido a atividades de resistência. Após o conflito, Dering migrou para a Grã-Bretanha, onde foi detido pelo governo britânico sob a suspeita de ser um criminoso de guerra, enquanto o governo polonês solicitava sua extradição. Em 1948, ele foi libertado após o Secretário do Interior decidir que não havia evidências suficientes para sustentar um caso prima facie contra ele.
Posteriormente, Dering ingressou no Serviço Médico Colonial, atuando em um hospital em Hargeisa, na Somalilândia Britânica, serviço pelo qual foi condecorado com a Ordem do Império Britânico (OBE) em 1960. Ao retornar para a Inglaterra no mesmo ano, estabeleceu sua prática médica no norte de Londres.
A Alegação de Difamação
O conflito iniciou-se quando a família de Dering alertou o médico sobre um trecho no romance Exodus, de Leon Uris. Em uma nota de rodapé na página 155, o autor afirmava que, no Bloco X de Auschwitz, o Dr. Dehring teria realizado 17.000 "experimentos" cirúrgicos sem o uso de anestesia. Diante disso, Dering processou Uris, a editora britânica William Kimber & Co Ltd e a empresa gráfica responsável pela impressão.
O Julgamento na Alta Corte de Justiça
O caso foi julgado entre abril e maio de 1964 na Alta Corte de Justiça, presidido pelo Sr. Justice Lawton e decidido por um júri. Enquanto a gráfica resolveu a disputa preventivamente com um pedido de desculpas e o pagamento de 500 libras, Uris e a editora alegaram que as afirmações eram substancialmente verdadeiras.
Argumentos da Acusação e Defesa
Dering negou ter realizado operações experimentais. Ele admitiu ter removido órgãos sexuais de prisioneiros, mas alegou que o fazia a pedido do Dr. Schumann e que não poderia recusar a ordem por medo de sua própria vida. Argumentou que as cirurgias eram benéficas para a saúde dos prisioneiros, cujos órgãos já estariam danificados, e negou a ausência de anestesia, afirmando que, de 17.000 operações, apenas cerca de 130 não teriam sido procedimentos médicos ordinários.
A defesa, por sua vez, admitiu que o número de 17.000 "experimentos" era inflacionado e que algum nível de anestesia fora administrado. No entanto, contestaram a alegação de que a vida de Dering estaria em risco caso ele se recusasse a cooperar. Para provar esse ponto, a defesa apresentou testemunhas, incluindo médicos prisioneiros que trabalharam em Auschwitz e que haviam recusado pedidos de médicos nazistas para auxiliar em experimentos sem sofrer punições.
Um depoimento marcante foi o da Dra. Adélaïde Hautval, psiquiatra francesa presa no campo, que afirmou ter recusado auxiliar os médicos nazistas por questões éticas e médicas, sem que isso resultasse em qualquer punição por parte do Dr. Wirths.
Veredito e Consequências Financeiras
Em 7 de maio de 1964, o júri retornou com um veredito favorável a Dering, mas concedeu-lhe uma indenização simbólica e contemptuosa de meio centavo (a menor moeda em circulação na época).
Embora tecnicamente vitorioso, o resultado foi financeiramente devastador para Dering. Devido às regras processuais da época, como a indenização era insignificante e os réus haviam depositado uma quantia ligeiramente maior (2 libras) no tribunal, Dering tornou-se responsável pelos custos advocatícios dos réus, estimados em 25.000 libras. Dering faleceu em julho de 1965, pouco após o julgamento.
Impacto e Legado
O julgamento atraiu imensa cobertura midiática, especialmente do jornal The Times, que publicou extensos relatos dos depoimentos. Essa cobertura foi tão impactante que a circulação do jornal aumentou significativamente, e os relatos foram posteriormente compilados no livro Auschwitz in England (1965).
O caso também serviu de inspiração para a obra posterior de Leon Uris, especificamente o romance QB VII e sua adaptação em minissérie de 1974, que exploram a temática de julgamentos de crimes de guerra.
Perguntas frequentes
Por que Dering v Uris é considerado o primeiro julgamento de crimes de guerra na Grã-Bretanha?
Embora fosse tecnicamente um processo civil de difamação, o caso foi descrito assim na época porque os depoimentos e evidências apresentados em tribunal focaram extensivamente nas atrocidades e experimentos médicos cometidos em Auschwitz.
Qual foi o valor da indenização concedida a Władysław Dering?
O júri concedeu a Dering meio centavo, a menor moeda da época, o que representou uma vitória simbólica, mas uma derrota financeira real.
Qual foi a importância do depoimento da Dra. Adélaïde Hautval?
Ela testemunhou que recusou auxiliar os médicos nazistas em seus experimentos por princípios éticos e que não sofreu punições por isso, refutando a alegação de Dering de que era forçado a operar sob ameaça de morte.