Filosofia

Doutrina do Ocasionalismo

Pontos principais

  • O ocasionalismo defende que as substâncias criadas não possuem causalidade eficiente e que todos os eventos são causados diretamente por Deus.
  • A doutrina teve forte expressão na teologia islâmica medieval, destacando-se as contribuições de Al-Ghazali contra os filósofos peripatéticos.
  • No século XVII, o ocasionalismo ganhou proeminência na escola cartesiana, sendo Nicolas Malebranche um de seus expoentes mais famosos.

O ocasionalismo é uma doutrina filosófica e teológica sobre a causalidade que sustenta que as substâncias criadas não podem ser causas eficientes de eventos. Em vez disso, postula-se que todos os eventos são causados diretamente por Deus. A ilusão de uma causalidade eficiente entre eventos mundanos surge do fato de Deus causar um evento após o outro, sem que haja uma conexão necessária ou intrínseca entre eles.

Origens na Teologia Islâmica

A doutrina alcançou proeminência inicial nas escolas teológicas islâmicas do Iraque, especialmente em Baçorá. O teólogo do século IX Abu al-Hasan al-Ash'ari argumentou que não existe causalidade secundária na ordem criada, sendo o mundo sustentado e governado pela intervenção direta da causalidade divina primária. Em árabe, esse conceito era conhecido como Kasb.

O proponente mais célebre da doutrina ocasionalista asharijita foi Al-Ghazali, teólogo do século XI baseado em Bagdá. Em sua obra A Incoerência dos Filósofos, Al-Ghazali criticou severamente filósofos islâmicos influenciados pelo neoplatonismo, como Al-Farabi e Avicena. Contra a tese de que a ordem criada é governada por causas eficientes secundárias, Ghazali argumentou que a suposta regularidade da natureza baseia-se na contínua vontade divina, não em uma necessidade independente de mudança. Em seu exemplo clássico, quando o fogo e o algodão entram em contato, o algodão queima não devido ao calor inerente do fogo, mas por intervenção direta de Deus.

Desenvolvimento no Cartesianismo

O ocasionalismo também está fortemente associado a certos filósofos do século XVII pertencentes à tradição cartesiana. Uma das motivações centrais para essa formulação foi a crença dualista de que a mente e a matéria possuem essências tão distintas que uma não pode afetar diretamente a outra. Assim, a vontade humana não seria a causa real do movimento físico, nem uma ferida física seria a causa real da angústia mental.

Embora existam ambiguidades nos escritos do próprio René Descartes, vários de seus seguidores assumiram explicitamente posições ocasionalistas. Entre os nomes mais notáveis dessa corrente destacam-se Johannes Clauberg, Claude Clerselier, Gerauld de Cordemoy, Arnold Geulincx, Louis de La Forge, François Lamy e, sobretudo, Nicolas Malebranche.

Críticas e Relação com David Hume

Os argumentos negativos dos ocasionalistas — sustentando que nenhuma conexão necessária pode ser descoberta empiricamente entre eventos mundanos — encontraram paralelos históricos nas formulações de Nicolau de Autrecourt no século XIV e foram posteriormente retomados por David Hume no século XVIII. Contudo, Hume rejeitou a solução positiva da doutrina que invocava a ação divina para substituir tais conexões causais.

Perguntas frequentes

O que é o ocasionalismo?

É uma doutrina filosófica e teológica que afirma que as criaturas não exercem causalidade eficiente entre si, sendo Deus o único causador direto de todos os eventos.

Qual foi o papel de Al-Ghazali no desenvolvimento do ocasionalismo?

Al-Ghazali defendeu a visão asharijita de que a regularidade da natureza é mantida pela vontade constante de Deus, negando a existência de leis naturais autônomas e de causas secundárias necessárias.

Como o dualismo influenciou o ocasionalismo?

O problema dualista de explicar como substâncias radicalmente distintas, como mente e matéria, poderiam interagir levou pensadores cartesianos a adotarem o ocasionalismo para explicar a aparente interação psicofísica.