Religião e Espiritualidade

Cânticos de Ascensão

Pontos principais

  • Compreendem os Salmos 120 a 134 da Bíblia.
  • São conhecidos como Salmos Graduais ou Cânticos de Peregrinos.
  • Possuem a superscrição hebraica 'Shir Hama'aloth'.
  • O Salmo 127 é o centro da coleção e é atribuído a Salomão.
  • Estão presentes na ordem canônica no Grande Rolo dos Salmos dos Manuscritos do Mar Morto.

Os Cânticos de Ascensão (do hebraico Shir Hama'aloth) compreendem um conjunto de quinze salmos, numerados de 120 a 134 no cânone bíblico (119–133 na Septuaginta e na Vulgata). Cada um desses salmos inicia com a superscrição "Shir Hama'aloth" (שיר המעלות), traduzida literalmente como "Cântico de Ascensão" ou "Cântico dos Degraus".

Devido à sua natureza e propósito, esses textos são conhecidos por diversas nomenclaturas, incluindo Salmos Graduais, Quinze Salmos, Cânticos de Degraus ou Cânticos de Peregrinos. Eles são caracterizados por sua brevidade, estilo epigramático e, em sua maioria, por tons de esperança e alegria.

Origens e Teorias sobre a Composição

Existem diversas teorias acadêmicas e tradicionais sobre a finalidade e a origem desses salmos:

  • Peregrinação a Jerusalém: Muitos estudiosos defendem que esses cânticos eram entoados por fiéis que subiam a estrada para Jerusalém para participar das três festas de peregrinação anuais (conforme prescrito em Deuteronômio 16:16).
  • Uso no Templo: Outra perspectiva sugere que eram cantados pelos levitas enquanto subiam os quinze degraus que separavam o pátio dos israelitas do pátio das mulheres no Templo de Jerusalém.
  • Contextos Históricos Específicos: Algumas teorias associam a composição desses salmos à dedicação do Templo de Salomão (959 a.C.) ou à celebração após a reconstrução das muralhas de Jerusalém por Neemias (445 a.C.).
  • Coletânea Posterior: Há quem considere que os poemas eram originalmente individuais e foram agrupados posteriormente, recebendo o título comum após o exílio na Babilônia.

A autenticidade da ordem canônica é reforçada por achados arqueológicos; o Grande Rolo dos Salmos (11Q5), parte dos Manuscritos do Mar Morto (datado entre 30-50 d.C.), apresenta os Cânticos de Ascensão em sua totalidade e na ordem canônica.

Estrutura e Características Literárias

O conjunto dos Cânticos de Ascensão apresenta simetrias numéricas e literárias notáveis. O Salmo 127, atribuído a Salomão, ocupa a posição central da coleção. Alguns comentaristas identificam uma estrutura quiástica, onde o Salmo 127 é o eixo, precedido e sucedido por sete salmos. Além disso, observa-se que 12 dos 15 salmos (exceto o 127) ecoam frases da bênção sacerdotal, enfatizando a proteção e a graça divina.

Uso no Judaísmo

Tradições Históricas e Místicas

Na Mishná, há referências que correlacionam os quinze cânticos aos quinze degraus do Templo. Existe também uma lenda talmúdica citando que o Rei Davi teria composto ou cantado esses quinze cânticos para acalmar as águas que subiam durante a fundação do Templo.

Práticas Contemporâneas

No judaísmo contemporâneo, a aplicação desses salmos varia conforme a comunidade:

  • Salmo 126: Frequentemente chamado de "Shir Hamaalot", é recitado por judeus ashkenazim antes da Graça Após as Refeições (Birkat Hamazon) no Shabbat, feriados e ocasiões festivas.
  • Salmo 121: É tradição em algumas comunidades colocar uma cópia deste salmo na sala de parto ou no carrinho do bebê para solicitar misericórdia divina e proteção para a criança.
  • Recitações Coletivas: Em certas comunidades, os quinze capítulos são recitados após a oração de Minchá no Shabbat à tarde durante o inverno, enquanto o Salmo 128 é recitado no Maariv ao final do sábado.

Uso na Liturgia Cristã

A transição desses salmos para a liturgia cristã ocorreu através das raízes judaicas do cristianismo primitivo, utilizando principalmente a Septuaginta. No monasticismo antigo, era comum que eremitas recitassem todo o Saltério diariamente, enquanto comunidades cenobíticas o fariam em uma semana, integrando os Cânticos de Ascensão nas horas canônicas.

Cristianismo Oriental

Na Igreja Ortodoxa Oriental e nas Igrejas Católicas Orientais de rito bizantino, os Cânticos de Degraus (anabathmoi) constituem o Décimo Oitavo Kathisma (divisão do Saltério). Eles são lidos nas Vésperas de sexta-feira ao longo do ano litúrgico. Durante a Grande Quaresma, a leitura ocorre todas as noites de segunda a sexta-feira e também na Semana Santa. Em tradições eslavas, a frequência de leitura aumenta durante o inverno devido à extensão das noites, repetindo-se o Décimo Oitavo Kathisma nas Matinas.

Perguntas frequentes

O que são os Cânticos de Ascensão?

São um grupo de 15 salmos (120-134) caracterizados por a superscrição 'Cântico de Ascensão', destinados originalmente a serem cantados durante a subida a Jerusalém ou no Templo.

Por que são chamados de Salmos Graduais?

O termo 'Graduais' refere-se aos 'degraus' (ma'aloth), sugerindo que eram cantados enquanto se subia fisicamente a estrada para Jerusalém ou os degraus do Templo.

Qual a importância do Salmo 127?

O Salmo 127 é central na coleção e, sendo atribuído a Salomão, o construtor do Templo, ressoa com o tema da construção da morada de Deus.

Qual a diferença de numeração entre a Bíblia Hebraica e a Septuaginta?

Na Bíblia Hebraica, eles são os Salmos 120-134; na Septuaginta e na Vulgata, são numerados de 119 a 133.