Historiografia

Pius XII, o Holocausto e a Guerra Fria: Análise da Obra de Michael Phayer

Pontos principais

  • O livro de Michael Phayer utiliza documentos desclassificados pelos EUA em 1997 para analisar o papado de Pio XII.
  • A tese central é que o anticomunismo de Pio XII influenciou sua neutralidade ou omissão perante o regime nazista.
  • A obra investiga as 'ratlines', rotas de fuga que permitiram a saída de criminoses nazistas da Europa para a América do Sul.

Pius XII, The Holocaust, and the Cold War é uma obra historiográfica publicada em 2008 pelo historiador Michael Phayer. O livro fundamenta-se em documentos desclassificados por ordem executiva do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, em 1997, que abriram acesso a registros de guerra e do pós-guerra anteriormente sigilosos.

Tese Central e Argumentação

A tese principal de Phayer é que o Papa Pio XII recusou-se a resistir ao regime nazista e, em certas ocasiões, teria facilitado a manutenção do regime. Segundo o autor, essa postura foi motivada pela percepção de que o comunismo representava uma ameaça superior à civilização ocidental, acreditando que o nazismo era o único baluarte capaz de conter a expansão do bolchevismo.

Phayer observa que essa teoria não é inédita, tendo sido proposta anteriormente por Robert Katz em sua obra Black Sabbath (1969). Katz argumentou que protestar contra a Alemanha de Hitler enfraqueceria a única barreira contra o comunismo e que denunciar a União Soviética de Stalin prejudicaria as potências ocidentais, que na época eram aliadas dos comunistas.

Fontes e Metodologia

O autor utiliza uma vasta gama de fontes primárias para sustentar suas afirmações, incluindo:

  • Documentos dos Arquivos Nacionais dos EUA e do Museu Memorial do Holocausto.
  • Correspondências diplomáticas, registros de espionagem americana e decifragens de comunicações alemãs.
  • Documentos liberados pelos governos da Argentina e do Ministério das Relações Exteriores britânico.
  • O diário do Bispo Joseph Patrick Hurley.

Phayer argumenta que esses documentos revelam informações divergentes daquelas apresentadas nos onze volumes de documentos da Segunda Guerra Mundial publicados oficialmente pelo Vaticano, os quais o autor classifica como "criticamente falhos" devido a diversas omissões.

A pesquisa de Phayer foca em pontos críticos, como a atuação do Vaticano em relação ao regime Ustaše, os genocídios na Polônia, as finanças da Igreja durante a guerra, a deportação de judeus em Roma e as chamadas ratlines (rotas de fuga) utilizadas por nazistas e fascistas para escapar da Europa após o conflito.

Recepção Crítica

Perspectivas Favoráveis

Charles Gallagher, escrevendo no The Heythrop Journal, descreveu a obra como possivelmente o livro mais abrangente sobre as relações entre Pio XII e o Estado nos últimos anos. Gallagher destacou o uso excepcional de fontes primárias, especialmente o Record Group 84 (arquivos diplomáticos do Enviado Pessoal do Presidente ao Papa), que oferece insights de inteligência anteriormente desconhecidos.

Gallagher também ressaltou a capacidade de Phayer de contextualizar a historiografia do tema, distinguindo historiadores profissionais de escritores cujo único objetivo é a defesa ou a condenação cega de Pio XII. David Kertzer, no American Historical Review, corroborou que o novo material trazido à luz contribui significativamente para a compreensão da relação controversa entre o Vaticano e os perpetradores do Holocausto, especialmente no período pós-guerra.

Críticas e Controvérsias

Por outro lado, a obra recebeu críticas de setores católicos. Vincent A. Lapomarda, no New Oxford Review, argumentou que o livro é mais fruto de visões subjetivas do autor do que de evidências objetivas. Lapomarda alegou que Phayer preenche lacunas documentais com fontes que teriam sido desacreditadas por outros historiadores, como Robert A. Graham e Matteo Sanfilippo.

Uma contradição apontada por Lapomarda refere-se ao uso da obra Unholy Trinity (1991), de Mark Aarons e John Loftus. O crítico afirma que Phayer, em certos pontos, questiona a confiabilidade do livro, enquanto em outros afirma que o relato de Aarons e Loftus é "majoritariamente preciso".

Perguntas frequentes

Qual é a principal tese de Michael Phayer em seu livro?

Phayer argumenta que o Papa Pio XII evitou resistir ao regime nazista porque via o comunismo como a maior ameaça à civilização, acreditando que o nazismo servia como um contra-peso necessário contra o bolchevismo.

Quais fontes Phayer utilizou para sua pesquisa?

O autor utilizou documentos dos Arquivos Nacionais dos EUA, do Museu Memorial do Holocausto, registros do governo argentino, do Ministério das Relações Exteriores britânico e o diário do Bispo Joseph Patrick Hurley.

Como a obra foi recebida pela crítica?

A recepção foi mista: historiadores como Charles Gallagher e David Kertzer elogiaram a profundidade das fontes primárias, enquanto críticos como Vincent A. Lapomarda consideraram a obra subjetiva e baseada em fontes contestadas.