Sociedade e Esportes

Racismo no Esporte na Austrália

Pontos principais

  • A Regra 30 da AFL, introduzida em 1995, foi o primeiro código de conduta contra a vilificação racial no esporte australiano.
  • O historiador Colin Tatz documentou que o racismo no esporte australiano existe desde o século XIX, afetando especialmente atletas aborígenes.
  • A campanha 'Racism. It Stops with Me', lançada em 2012 pela AHRC, unificou as principais federações esportivas do país contra a discriminação.
  • A legislação esportiva interna na Austrália é espelhada na Racial Discrimination Act de 1975 e na Racial Hatred Act de 1995.

O racismo no esporte australiano possui raízes profundas, com registros de discriminação que remontam ao século XIX. Historicamente, a aceitação de atletas indígenas tem sido condicional, frequentemente oscilando entre a celebração durante vitórias e a marginalização em outros contextos. Desde a década de 1990, houve um aumento significativo no relato de casos de vilificação racial, impulsionando as organizações esportivas a implementarem medidas regulatórias e campanhas de conscientização.

Contexto Histórico e Sistêmico

O historiador do esporte Colin Tatz, em sua obra Obstacle race: Aborigines in sport (1995), documentou que a discriminação contra atletas aborígenes e habitantes das Ilhas do Estreito de Torres ocorreu sistematicamente desde os anos 1800. Tatz sintetizou a experiência desses atletas afirmando que eles eram vistos como "australianos quando estavam vencendo, e aborígenes nos demais momentos".

A visibilidade do problema aumentou a partir dos anos 1990, coincidindo com a maior participação de atletas indígenas em ligas profissionais, como a Australian Football League (AFL) e a National Rugby League (NRL), além da criação de normas institucionais para processar denúncias de racismo.

Marcos Regulatórios e a "Regra 30"

Um ponto de virada ocorreu em abril de 1995, quando o jogador Damian Monkhorst, do Collingwood, proferiu abusos raciais contra Michael Long, do Essendon. A investigação subsequente da AFL revelou que a vilificação racial era uma prática comum, com pelo menos dez jogadores de seis clubes diferentes envolvidos em abusos regulares.

Em resposta às falhas no processamento do caso de Long, a AFL introduziu, em 30 de junho de 1995, a Regra 30 (Rule 30: A Rule to Combat Racial and Religious Vilification). Esta norma estabelecia que nenhum jogador poderia agir ou falar de maneira a ameaçar, depreciar, vilificar ou insultar outra pessoa com base em sua raça, religião, cor, descendência ou origem nacional ou étnica. A Regra 30 foi o primeiro código de conduta contra a vilificação racial no esporte australiano, servindo de modelo para a maioria das outras organizações esportivas nacionais.

Essas regulamentações esportivas voluntárias refletem a legislação federal australiana, especificamente a Racial Discrimination Act 1975 e a Racial Hatred Act 1995, que tornam ilegal a prática de atos públicos destinados a ofender, insultar, humilhar ou intimidar pessoas com base em sua origem étnica ou racial.

Iniciativas de Combate e Conscientização

A Comissão Australiana de Direitos Humanos (AHRC) destacou, em relatório de 2006, que o racismo no esporte é um problema complexo que envolve não apenas jogadores, mas também espectadores, treinadores, árbitros e comentaristas de mídia.

Para enfrentar essa questão, diversas iniciativas foram implementadas:

  • Rodadas Indígenas: A AFL e a NRL estabeleceram "Rodadas Indígenas" anuais para celebrar a cultura e a contribuição dos atletas originários, com destaque para a partida Dreamtime at the 'G na AFL.
  • Plataformas de Apoio: O site Play by the Rules, criado em 2001, oferece recursos para administradores, técnicos e pais sobre como lidar com o racismo.
  • Campanhas Públicas: Em 2012, a AHRC lançou a campanha Racism. It Stops with Me ("Racismo. Para Comigo"), que contou com o apoio de grandes organizações como Cricket Australia, Tennis Australia e a Federação Australiana de Futebol, utilizando publicidade com atletas indígenas e não indígenas para promover a tolerância.

Casos Notáveis por Modalidade

Atletismo

A discriminação no atletismo manifestou-se desde cedo. Em 1888, velocistas brancos recusaram-se a competir contra corredores indígenas no Sheffield Handicap em Thargomindah, Queensland, resultando na criação de uma corrida exclusiva para aborígenes. Em 1903, a Associação Amadora de Atletismo de Queensland tentou banir todos os aborígenes sob a alegação de "falta de caráter moral" e "falta de inteligência", tentativa que foi rejeitada pela Associação Amadora de Atletismo Australiana.

Futebol Australiano (AFL)

Casos de exclusão e abuso persistiram por décadas. Em 1927, Doug Nicholls foi rejeitado pelo Carlton Football Club devido à sua cor de pele e odor. Mais tarde, entre as décadas de 1960 e 1990, jogadores como Syd Jackson, Phil e Jim Krakouer e Michael McLean relataram ter sido alvos de insultos raciais por adversários e torcedores. Há registros de que os irmãos Krakouer foram suspensos após reagirem a abusos raciais em campo.

Perguntas frequentes

O que foi a Regra 30 da AFL?

Foi a primeira norma implementada no esporte australiano (em 1995) para combater a vilificação racial e religiosa, proibindo condutas que insultem ou depreciem pessoas com base em raça, cor ou origem étnica.

Como as ligas de futebol australiano lidam com a cultura indígena?

A AFL e a NRL promovem anualmente as 'Rodadas Indígenas', que celebram a herança dos atletas originários e visam aumentar a conscientização sobre a diversidade cultural.

Qual a relação entre as regras esportivas e a lei australiana?

As regras de conduta das organizações esportivas são baseadas na Racial Discrimination Act de 1975 e na Racial Hatred Act de 1995, que criminalizam atos públicos de ódio e humilhação racial.