Irreligião e Secularismo no Reino Unido
Pontos principais
- O censo de 2021 mostrou que menos de 50% da população da Inglaterra e do País de Gales se identifica como cristã.
- O termo 'secularismo' foi cunhado por George Holyoake em meados do século XIX.
- O Oaths Act de 1888 foi um marco legal que permitiu a não religiosos assumirem cargos públicos sem prestar juramento religioso.
- A população sem religião é atualmente o grupo de crescimento mais rápido no Reino Unido.
A irreligião no Reino Unido compreende um espectro diversificado de identidades, incluindo pessoas sem religião, agnósticos, ateus, humanistas e pensadores livres. Historicamente, a rejeição do cristianismo como posição filosófica começou a se consolidar por volta do século XVIII, evoluindo para movimentos organizados de secularismo e humanismo que moldaram a relação entre o Estado e a crença religiosa na sociedade britânica.
Panorama Demográfico Contemporâneo
Dados do censo de 2021 revelam uma mudança significativa na composição religiosa da população da Inglaterra e do País de Gales. Pela primeira vez, menos da metade da população declarou-se cristã, enquanto o grupo de pessoas que identificam "nenhuma religião" tornou-se o segmento de crescimento mais rápido.
| Afiliação Religiosa | Percentual (%) |
|---|---|
| Cristãos | 46,2% |
| Sem religião | 37,2% |
| Muçulmanos | 6,5% |
| Hindus | 1,7% |
| Sikhs | 0,9% |
| Budistas | 0,5% |
| Judeus | 0,5% |
| Outras religiões | 0,6% |
| Não declarado | 5,99% |
Este declínio na adesão religiosa tem gerado debates sobre a representatividade das instituições e estruturas legislativas britânicas, que são frequentemente criticadas por não refletirem a realidade de uma população crescentemente não religiosa.
Desenvolvimento Histórico (1700–1850)
O ativismo organizado em prol da irreligião no Reino Unido tem raízes no legado dos não conformistas britânicos. Um marco inicial foi a fundação da Sociedade Religiosa de South Place em 1793, que posteriormente se associaria ao movimento ético.
No início do século XIX, surgiram publicações fundamentais para a disseminação do pensamento ateísta. Em 1811, Percy Bysshe Shelley publicou The Necessity of Atheism, embora obras anteriores, como as do médico Matthew Turner, já tivessem desenvolvido críticas sistemáticas à crença em Deus.
Entre 1841 e 1843, Charles Southwell publicou The Oracle of Reason, o primeiro periódico abertamente ateísta da história britânica. A publicação enfrentou forte repressão, resultando na prisão de membros da equipe, incluindo Southwell, George Holyoake e Thomas Paterson, sob acusações de blasfêmia. George Holyoake, após cumprir pena, fundou The Movement (1842–1845) e, posteriormente, The Reasoner (1845–1860), focando em questões sociais da classe trabalhadora. Foi nesse período que Holyoake cunhou o termo "secularismo", propondo a substituição do cristianismo por um sistema ético baseado na ciência e na razão.
Consolidação do Secularismo (1850–1900)
A formalização do termo secularismo em 1851 proporcionou clareza ao movimento que buscava a separação entre religião e Estado. Em 1866, Charles Bradlaugh fundou a Sociedade Nacional Secular, defendendo a libertação dos cidadãos de obrigações governamentais ligadas a observâncias religiosas.

A trajetória de Charles Bradlaugh no Parlamento exemplifica as tensões da época. Eleito em 1880, Bradlaugh foi impedido de assumir seu cargo por cinco anos devido à sua recusa em prestar juramento religioso, exigindo o direito de fazer uma afirmação solene. Sua admissão final em 1886 levou à aprovação do Oaths Act 1888, que garantiu legalmente o direito de optar pela afirmação em vez do juramento em cargos públicos e testemunhos governamentais.
No final do século XIX, o movimento diversificou-se com a fundação de The Freethinker (1881), o periódico humanista mais longevo da Grã-Bretanha, e a criação da União de Sociedades Éticas em 1896 por Stanton Coit, que mais tarde evoluiria para a Associação Humanista Britânica.
O Século XX e a Expansão do Humanismo
A década de 1960 marcou um período de rebranding e expansão. A União Ética tornou-se a Associação Humanista Britânica, cofundando a União Humanista e Ética Internacional e criando o símbolo do "Humano Feliz" (Happy Human). Figuras públicas e comunicadores passaram a defender abertamente valores não religiosos e a educação secular.

Paralelamente, a luta contra as leis de blasfêmia continuou. John William Gott, por exemplo, foi preso em 1911 e novamente anos depois por panfletos que satirizavam o cristianismo, evidenciando a persistente tensão entre a liberdade de expressão racionalista e as leis religiosas vigentes na época.
Perguntas frequentes
O que é irreligião no contexto do Reino Unido?
A irreligião engloba a ausência de crença religiosa, incluindo identidades como ateísmo, agnosticismo, humanismo e a simples identificação como 'sem religião'.
Quem foi George Holyoake e qual sua importância?
George Holyoake foi um ativista e editor que cunhou o termo 'secularismo' em 1851, propondo um sistema ético baseado na razão e na ciência em vez de dogmas religiosos.
Qual a importância do Oaths Act de 1888?
Esta lei permitiu que indivíduos não religiosos pudessem fazer afirmações solenes em vez de juramentos religiosos para assumir cargos públicos ou prestar depoimentos, removendo barreiras legais para ateus e agnósticos.